Comunicação
A comunicação do advogado pode aproximar ou afastar as partes?
Ana Luiza Galvão de Barros Villalobos Bueno
30 de outubro de 2026 às 12:00:00
A comunicação do advogado pode aproximar ou afastar as partes?
Advogado, você já parou para pensar no impacto que a sua forma de se comunicar pode ter em uma sessão de mediação familiar?
Em uma sessão de mediação recente, uma situação me levou a refletir sobre como a comunicação coercitiva pode intensificar o desgaste emocional entre as partes. Embora o acordo tenha sido alcançado, a tensão acumulada culminou em um confronto ao final do encontro.
Uma comunicação impositiva pode transformar a negociação em uma disputa de poder. Já uma postura colaborativa permite que as divergências sejam enfrentadas com clareza, sem alimentar a hostilidade entre pessoas que, muitas vezes, continuarão vinculadas pela parentalidade.
A presença do advogado é fundamental para orientar juridicamente seu cliente, esclarecer riscos, avaliar propostas e proteger interesses. A mediação não exige que o profissional abra mão de seu papel.
A questão está na maneira como esse papel é exercido.
Quando o advogado ocupa todo o espaço de fala, corre-se o risco de reduzir a participação do próprio cliente, justamente em um momento no qual sua voz é essencial.
Como sua comunicação pode fazer a diferença?
Algumas atitudes simples podem contribuir para uma mediação mais produtiva.
Dê espaço à voz do seu cliente. Sua orientação é essencial, mas permitir que ele expresse suas próprias percepções fortalece sua autonomia e participação nas decisões.
Escute sem transformar cada divergência em confronto. Você pode discordar, questionar e defender uma posição com firmeza, sem desqualificar a outra parte.
Troque acusações por perguntas. Em vez de reforçar o conflito, ajude a identificar interesses, necessidades e alternativas que possam aproximar as partes.
Olhe além da disputa jurídica. Em conflitos familiares, o acordo também precisa considerar a realidade cotidiana dos pais e as necessidades dos filhos.
Pense no dia seguinte ao acordo. Como esses pais vão conversar sobre a próxima visita, uma decisão escolar ou uma questão relacionada à saúde da criança? A solução construída hoje deve, sempre que possível, favorecer o diálogo de amanhã.
Trabalhe em parceria com o mediador. A construção de um ambiente seguro e respeitoso depende da colaboração de todos, preservando-se a autonomia das partes e a adequada proteção de seus direitos.
Afinal, o que queremos construir?
Advogado, sua atuação pode ir além de conquistar uma cláusula favorável. Você também pode contribuir para que seu cliente tome decisões conscientes, compreenda as necessidades envolvidas e encontre formas mais respeitosas de se relacionar com o outro genitor.
Agir dessa forma não significa assumir o papel do mediador ou deixar de exercer a advocacia com firmeza. Significa reconhecer que a maneira de conduzir o diálogo também produz consequências.
A pacificação começa na maneira como nos comunicamos
A experiência reforçou uma convicção que acompanha meu trabalho como mediadora: uma solução consensual pode encerrar uma etapa do conflito, mas a maneira como ela é construída influencia a experiência que cada participante leva consigo.
Um convite à advocacia: experimente uma nova forma de dialogar
Advogado, deixo um convite para sua próxima sessão de mediação: antes de apresentar argumentos, experimente escutar. Antes de rebater uma proposta, procure compreender o que está por trás dela. E, antes de encerrar uma negociação, reflita sobre como o acordo poderá impactar a comunicação entre os pais no dia seguinte.
Observe como a escuta, o respeito e a colaboração podem ampliar as possibilidades de diálogo sem comprometer a defesa dos direitos de seu cliente.
O desafio é simples: continue defendendo com firmeza, mas escolha construir pontes em vez de ampliar distâncias.
Seu trabalho pode ir além de resolver o conflito de hoje. Pode também ajudar a construir um caminho mais saudável para o amanhã dessa família.
Vamos pacificar?
Continue defendendo com firmeza, mas escolha construir pontes em vez de ampliar distâncias.


