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Comunicação

Muros criados e distâncias aumentadas

Ana Luiza Galvão de Barros Villalobos Bueno

23 de julho de 2026 às 22:45:00

Ilustração de uma criança segurando uma estrela diante de uma pessoa adulta, separadas por uma barreira abstrata que interrompe o caminho da comunicação.

Era uma vez a pequena Sofia, uma menina de sete anos que guardava os olhos cheios de luz e a cabeça cheia de histórias. Naquela tarde, ela voltou da escola trazendo um tesouro no peito: uma vontade imensa de contar à mãe algo muito importante que havia acontecido na sala de aula.

Ao entrar na cozinha, viu a mãe, Paula, digitando rapidamente no celular enquanto a panela chiava no fogão.

“Mamãe! Você não sabe o que aconteceu hoje na hora do recreio!”, disse Sofia, pulando de um pé para o outro.

Paula continuou olhando para a tela, com os dedos voando pelas teclas.

“Hum, conta, Sofia. Estou ouvindo”, respondeu, com a voz mecânica.

“A Júlia começou a chorar porque o desenho dela rasgou, e aí...”

Antes que Sofia pudesse terminar, Paula franziu a testa, largou o celular sobre a mesa e interrompeu a filha:

“Eu já sei o que você fez, Sofia! Você correu perto da mesa dela de novo, não foi? Quantas vezes eu já disse para ter cuidado com as coisas dos seus colegas? Você precisa parar de ser tão estabanada!”

Sofia deu um passo para trás. O sorriso desapareceu de seu rosto. Ela sentiu um nó apertar a garganta.

“Mas, mamãe, não foi isso...”, tentou explicar, com a voz baixinha.

“Não venha com desculpas, mocinha”, cortou Paula, voltando a pegar o celular. “Você sempre quer se justificar. Aposto que a professora precisou chamar a sua atenção. Vá lavar as mãos para o lanche e pense no que você fez.”

Sofia não disse mais nada. Deu as costas e caminhou lentamente até o quarto. Suas bochechas estavam quentes e os olhos, cheios de lágrimas que ela segurou para não chorar.

O que Sofia queria contar, na verdade, era que havia visto Júlia chorando, aproximado-se da mesa da amiga e usado um pedaço de fita adesiva para ajudá-la a colar o desenho. A professora tinha elogiado sua atitude e lhe dado um adesivo de estrela brilhante, que agora estava escondido no bolso do casaco.

Sentada na beira da cama, Sofia olhou para a estrela dourada na palma da mão. Percebeu que a mãe não queria realmente saber o que havia acontecido. Paula já tinha criado a história em sua própria cabeça.

Daquele dia em diante, algo mudou no coração de Sofia. Sempre que algo bom, ruim ou engraçado acontecia na escola, ela guardava para si. Quando Paula perguntava “Como foi o seu dia?”, a menina apenas dava de ombros e respondia:

“Foi normal.”

A caixinha de segredos de Sofia foi ficando cada vez mais trancada, longe dos ouvidos de quem não sabia escutar.

Escutar com presença

Escutar de verdade exige esvaziar a mente das respostas prontas que ensaiamos enquanto o outro fala. Exige oferecer espaço para que ele se sinta seguro ao compartilhar seus sentimentos e suas percepções.

Entre pais e filhos, o diálogo é construído diariamente, por meio da troca e do aprendizado. Dialogar com presença significa afastar-se por alguns instantes do celular e das outras tarefas para se concentrar no que a criança está dizendo ou tentando expressar. Abraços, sorrisos e gestos também comunicam segurança e ajudam a proteger a relação de confiança.

O universo infantil pode parecer simples aos olhos de um adulto, mas é complexo para a criança. Acolher seus medos e suas dúvidas sem desmerecê-los contribui para a formação de pessoas mais amorosas, empáticas e seguras.

Aprofundar a comunicação na primeira infância transforma conflitos em oportunidades de aprendizado e proximidade. O uso de “abridores de portas” incentiva a criança a se expressar, demonstra interesse genuíno e valida aquilo que ela está vivendo. Algumas frases podem ajudar:

“Conte-me mais sobre isso.”

“Isso parece interessante.”

“Como você resolveu isso?”

Uma criança que cresce sendo ouvida com presença pode desenvolver maior capacidade de identificar e regular as próprias emoções, mais confiança para se expressar e melhores recursos para resolver conflitos de forma pacífica. Essa escuta fortalece a conexão familiar e ajuda a manter aberto um canal de diálogo para a adolescência e para a vida adulta.

Na primeira infância, a comunicação depende principalmente de escuta, validação e segurança. As crianças pequenas talvez não compreendam o estresse vivido pelos adultos, mas percebem a distância, a distração e a pressa.

Criar conexão não exige necessariamente muitas horas. Exige qualidade e intencionalidade.

Na correria, o tempo não é medido pelo relógio, mas pela presença.

A vida que estou construindo hoje é a mesma que meus filhos vão querer lembrar amanhã?

Quantas vezes, por pressa ou julgamentos apressados, atropelamos uma conversa importante com nossos filhos?

A escuta ativa pode interromper esse ruído e reabrir o caminho para a confiança e a proximidade.

Na correria, o tempo não é medido pelo relógio, mas pela presença.

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