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Entre Mediadores

Quando a lágrima rola lenta e silenciosa

Justina Fátima Oliveira

5 de setembro de 2026 às 12:00:00

Ilustração de uma mediação virtual em andamento, com a mediadora observando a tela enquanto uma participante aparece emocionada, com lágrima no rosto, e outra pessoa acompanha em silêncio. Ao redor, há caderno de anotações, livros, vela e objetos que remetem à escuta, equilíbrio e reflexão.

Quando a lágrima rola lenta e silenciosa


O que o mediador faz que ninguém percebe?


Mediação, ferramentas, procedimentos e imparcialidade. Será?


E o teu humano fica onde?


Deixaremos de ser humanos pelos procedimentos que temos que seguir?


Não. Mas precisamos nos recompor e reiniciar. Porque é um reinício, mesmo quando estamos no transcorrer dos trabalhos ou já próximos do fim.


Uma tela. Quatro janelas abertas. Um ambiente que poderia parecer frio, mas é humano. Distantes geograficamente, próximos pela tecnologia. Isso também é mediação, mesmo quando virtual.


De repente, tu estás diante de um ser humano corroído por dentro pela dor, que transparece em uma lágrima que rola lentamente pelo rosto. A fala também vem lenta, buscando respiração, buscando forças para aceitar o pedido do outro.


E tu, mediador, tens milésimos de segundos para receber aquilo, refletir e buscar palavras que acolham sem desnudar o outro de sentimentos que talvez ainda não tenham aflorado ou se tornado visíveis, mas existem.


Porque, por mais que seja uma decisão tomada e buscada por uma das pessoas, quem a tomou também pode estar corroído por dentro, ainda que não consiga demonstrar.


Há ainda o amor por um terceiro ser, fruto daquela história e daquela decisão dura e pesada.


Diante de ti estão pessoas que viveram vínculos, escolhas, expectativas e promessas. Um dia, alguém disse que acompanharia aquele terceiro ser, mesmo sabendo que não era fruto de si. Em algum momento, porém, não conseguiu seguir adiante.


E então surgem, dentro do mediador, perguntas que talvez ninguém perceba.


Por que desistiu daquilo que sabia que não era seu, mas que um dia aceitou?


O que aconteceu?


Quem ou o que participou dessa mudança?


Haveria alguma influência externa naquela convivência?


E o instituto da adoção? Estaria sendo desfeito, por vontade própria e unilateral, algo que o próprio instituto busca tornar estável?


E a mediação, construída a partir do consenso entre os participantes, como se relaciona com os limites jurídicos dessa situação?


E o juiz, terceiro imparcial que observa o mesmo cenário a partir de outro lugar, como o enxergaria?


Tudo isso surge em milésimos de segundos.


Porque ali existe também um protagonista que ainda não fala, que apenas manifesta sons de alegria ou tristeza, que não responde nem se posiciona, mas cuja existência atravessa toda aquela conversa.


Um dia, esse ser despertou amor, vínculo e confiança em outra pessoa. Em algum momento, algo mudou. Essa confiança, essa escolha ou esse vínculo se rompeu ou congelou.


O que aconteceu?


São tantas indagações que, em milésimos de segundos, o mediador precisa perceber, acolher e, ao mesmo tempo, deixar passar.


É preciso reconhecer aquilo que atravessou o próprio pensamento sem transformar hipótese em verdade.


Enquanto isso, continua escutando.


Continua olhando para as imagens à sua frente.


De um lado, uma lágrima escorrendo pelo rosto.


Do outro, quase nenhum movimento externo.


E cabe ao mediador acolher quem demonstra a dor sem esquecer de quem não a demonstra. Porque a ausência de lágrima não significa ausência de sentimento.


Em milésimos de segundos, precisamos buscar no nosso jardim interno a recomposição e retomar a condução da mediação.


Precisamos nos fortalecer e recuperar o lugar de imparcialidade que escolhemos ocupar profissionalmente.


Mas isso não significa deixar de sentir.


Por dentro, podemos perceber identificação, indignação, compaixão, dúvida, incômodo e até uma inclinação inicial para compreender mais um lado do que o outro.


O trabalho invisível talvez esteja justamente aí: reconhecer tudo isso sem permitir que essas reações decidam por nós.


Porque o humano reside dentro de mim e nunca sairá de mim.


Por mais que eu esteja mediadora, continuo sendo um ser humano de sentimentos, emoções, perguntas e buscas por respostas no consciente e no inconsciente.


Reconheço o que acontece dentro de mim, me recomponho e retomo a caminhada.


É assim a nossa trajetória.


O que faço em uma mediação que ninguém percebe?


Gravataí, 4 de setembro de 2026
Manhã de sexta-feira

O humano reside dentro de mim e nunca sairá de mim. Por mais que eu esteja mediadora, sou um ser humano de sentimentos e emoções.

Justina Fátima Oliveira

Justina Fátima Oliveira é gaúcha, mediadora e conciliadora judicial e privada. Bacharel em Direito e pós-graduada em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness, gosta de fazer pães, cuidar da casa e aproveitar o silêncio. Talvez por isso também acredite tanto no tempo, na escuta e nos processos que não podem ser apressados.

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