Comunicação
Quando o casal termina, a comunicação precisa continuar
Ana Luiza Galvão de Barros Villalobos Bueno
30 de setembro de 2026 às 12:00:00
Algumas experiências na mediação terminam quando a sessão acaba. Outras continuam dentro da gente.
Recentemente, uma mediação familiar me fez pensar, mais uma vez, sobre o poder e também sobre a responsabilidade da comunicação depois que um casal se separa.
Quando uma relação termina, é natural que existam dor, frustração, raiva e ressentimento. Às vezes, existem traições, decepções, abandono e diferenças que se tornaram insuportáveis. Há histórias que terminam deixando feridas profundas. E não é preciso negar nenhuma delas para seguir adiante.
O que talvez precise mudar é o lugar que essas dores passam a ocupar.
Quando existem filhos, a separação não encerra a necessidade de comunicação. Ao contrário, ela cria uma nova necessidade de conversar. Só que agora já não se trata de conversar como marido e mulher, companheiros ou namorados. Trata-se de aprender a conversar como pai e mãe.
E isso pode ser muito difícil.
Duas pessoas que já não conseguiam conviver podem precisar decidir juntas sobre escola, saúde, férias, horários, aniversários, limites, rotinas, educação e tantas outras pequenas e grandes questões que fazem parte da vida de um filho.
Para isso, é preciso falar.
Mas, principalmente, é preciso escutar.
Escutar não significa concordar. Não significa esquecer o que aconteceu. Não significa absolver o outro das dores que causou.
Escutar significa reconhecer que, a partir daquele momento, existe uma nova relação que precisa ser construída: a relação entre dois adultos que continuarão ligados por alguém que não escolheu a separação.
É aí que a comunicação pode deixar de ser apenas uma ferramenta para resolver conflitos e se tornar uma forma de cuidado.
Isso não significa que a comunicação precise acontecer sempre de forma direta. Em situações de violência, ameaça ou risco, o contato pode precisar de limites, proteção, canais seguros e acompanhamento profissional. Cuidar da comunicação também é reconhecer quando conversar diretamente não é possível ou não é seguro.
Os filhos escutam o que os pais dizem, mas também percebem aquilo que não é dito. Percebem o silêncio, a tensão, o desprezo, a dificuldade de falar do outro, as mensagens atravessadas e a pressão para escolher lados. Mesmo quando não compreendem completamente o conflito, muitas vezes sentem seus efeitos.
Talvez um dos maiores presentes que pais separados possam oferecer aos filhos seja justamente a possibilidade de não precisarem carregar aquilo que pertence à história do casal.
O filho não precisa saber quem tem razão. Não precisa ser mensageiro. Não precisa escolher. Não precisa carregar a mágoa de um contra o outro.
Ao contrário, precisa poder amar o pai sem sentir que está traindo a mãe e amar a mãe sem sentir que está traindo o pai.
Isso exige dos adultos maturidade e muito esforço, pois pode ser necessário aprender uma forma de comunicação que talvez não tenham conseguido construir enquanto estavam juntos.
O casal pode terminar. A mágoa pode permanecer. Mas a infância daquela criança não espera. Ela está acontecendo agora. E, enquanto dois adultos discutem quem feriu quem, uma criança cresce.
Talvez por isso, depois de uma separação, uma das perguntas mais importantes seja:
Que tipo de relação vocês querem construir daqui para a frente, como pais, enquanto seu filho cresce?
Não é possível apagar o que aconteceu, mas é possível escolher o que fazer com aquilo que aconteceu.
Uma comunicação mais cuidadosa entre dois adultos separados pode evitar que uma dor que nasceu na relação do casal se transforme em uma herança emocional para os filhos.
E talvez fique para cada um de nós uma pergunta:
Depois que o casal termina, que história queremos que os nossos filhos levem para a vida?
O casal pode terminar. A mágoa pode permanecer. Mas a infância daquela criança não espera.


